"A JUSTIÇA, A EQUIDADE, A MODERAÇÃO, QUASE ENTERRADAS NO PAÍS..." O cântaro quebrado é uma peça do alemão Kleist (1777-1911). Nela o verdadeiro culpado é o juiz. A história se passa numa aldeia neerlandesa, mas podia ser no Brasil. Com uma diferença crucial. Nenhuma autoridade de cá diria estas palavras do juiz Adam: "Sonhei que um queixoso me agarrava e me arrastava até o tribunal, e lá estava eu mesmo sentado no banco dos réus, e ele me repreendia, me insultava, me chamava de malandro e me condenava à forca". No Brasil cabe a pergunta de Pessoa: "Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?" Não, no Brasil não há esse tipo de confissão. Sobretudo na chamada elite. Ninguém teve, tem ou terá culpa. Neste paraíso da moralidade - sobretudo a pública - não falta quem subscreva a frase da ficção sartriana: o inferno são os outros. Além disso, parece haver sido incorporada aquela máxima do século XVI, que Gaspar Barléu fez bem-conhecida. Tão conhecida, que virou tema de canção.